quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

EXCRETANDO OS FADOS...



Se eu pudesse fazer um desenho da alma teria uma tela inundada por cascatas escatológicas de sangue, por cortes no meandro do mar, por navalhas laboriosas e eficazes no ofício de dissecar ilusões.




Se eu, realmente, pudesse fazer um milímetro de esboço da minha maldita alma teria posta à carne sonhos em putrefação, teria uma realidade construída e desconstruída derridianamente em milésimos de segundo por mímese e maldição...




Se eu pudesse essa opaca tela, talvez, gotejasse vida em meus baldes espasmódicos e lúgubres de dissabores.Fiaria esperanças no arremedo escuso de meus retalhos estóicos.




É possível, então, que não tivesse esse grito embolorado na garganta, não tivesse esses olhares fugidios sentenciando que a versão de mundo é sempre contextual e volátil.




Eu não seria essas outras todas que me concebem agonística, não sentiria essa vontade de jogar as vivências no lodo do esquecimento.Talvez - mais uma vez, talvez - minha memória soasse alguma cadência que não fosse esse turbilhão sonoro de assomos e assombros sustenidos em tom menor.




Esse choro preso parece veneno, displasia. Esse devaneio estético é clausura do bufão na masmorra de suas limitações.




Ah! Pudesse eu conceber a vida algo risível, algo belo como lixo não-orgânico, como sei-lá-eu-o quê-é -perene.Mas meu carmim é de morte, meu olhar é lascivo como os umbrais e meu sexo é um sarcófago tumular.




Minha imundície é a geladeira da minha imensa e máxima culpa a despeito dos que me tolhem com seus dedos longilíneos. Dedos apontados em riste como armas para o que não sai de dentro de mim e já medito e me corta diariamente.




Háhá, pobres coitados que me sentenciam sem saber que já o faço, como se este emprego deles fosse único e singular como o de Deus. Anuncio aos brados que sou o Deus de mim.Destarte, escarro, a parte disso, esperanças nevrálgicas em dias de penumbra e também sorrio maliciosa (irônica e dialeticamente) para meus "amigos" e "inimigos" cretinos que constroem uma realidade com leis e castigos desgastados e hipócritas como a Lei de Talião e o remorso dos carrascos e empaladores

Infante, como catarse, imagino cirandas que viram elipses no infinito e que tudo que é circular irá, miraculosamente, se desvincular para a lógica cartesiana inexistente de que todos - de fato - somos antagonicamente os mesmos.




Sinto que meu impulso vital tão caro e esmerado em liturgias se melindra e ressente: escoa.Qualquer coisa minha é pedra bruta. O bom ou ruim - se quiserdes a insalubre maniqueísta explicação.




Tenho a pureza das minhas imperfeições maculadas como troféus -para-além, meus percalços e julgamentos são escárnio para a cultura de massa e minha falta de referências uma afronta:um cálice insano e dionisíaco de delírio e paixão- pathos.




Sou um arauto de incoerências, o devaneio na arte bizarra da não-aceitação.Sou a incompreensão das fogueiras, a sentença das guilhotinas, a eletricidade das cadeiras do imaginário medíocre.




Sou essa coisa desprezível que se quer inteira nos seus fragmentos, esse NARCISO que coleciona perdas com seus olhos de lagoa, com seus ouvidos de Eco.




Sou a desastrada que derruba vidas no lugar de garrafas de vinho, a maldição das ladainhas na janela.




Sou essas imagens fétidas e vulgares, pseudo-esclarecedoras, essas injeções de morfina.




Sou uma ramagem de crisântemos para o salão de uma valsa fúnebre e ecumênica na qual a melodia não se sabe, na qual o seus acordes melancólicos não terão transcendência para explicar o caos.




E essa coisa escrita que se julga a coisa é meu vômito e meu perdão, meu punhal, minha ira e minha devoção...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Da criação...

Do espanto fez-se a deriva...para sinalizar esse não-lugar, como buscasse rosa dos ventos ou bússola malograda de nascença, criou um blog. Quis repreender-se, julgou arroubo juvenil e escracho histérico, por fim, conteve-se. Aceitou esse instrumento como saída para quem se perde em emaranhados mares de pensamento e pôs-se a escrever.
Eis a história "malfadada" de uma fada horrorosa...