segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Padrinho

-Eu quero ir.
Tratava-se de um enterro, o de meu padrinho e tio. Não sabia o que estava sentindo quando da notícia, apenas queria significar.
Queria abraçar minha prima, olhar para o rosto de meu tio, buscar uma resposta da vida, rever o túmulo do meu pai, encarar e realidade menos lapidada da humanidade.
Não quis me aproximar, não peguei nenhuma flor do caixão, como costumo fazer. Achei que fosse ficar sóbria, mas apertou algo bem no peito e doeu por sobre a cabeça. Quando dei por mim prendia o choro e minutos depois já estava atônita e inerte com olhos "postos- vagos" para os carinhos de minha prima ao seu pai.
Havia duas foto dele, um chapéu que gostava, muitas flores e um moço no violão. As coisas se passavam em rituais católicos que me incomodavam, pois não conseguia discernir o que sentia e isso sempre me perturbou. Sentia raiva de mim por achar os rituais estranhos, sentia tristeza por sentir que estava longe da rota, sentia medo de ser a incrédula de que falava o padre. A incrédula que não conseguia acreditar em nada pela vastidão de possibilidades de crença.
A crença da não-crença se fez doutrina e resignação.
Lembrei do semblante de meu tio. Era doce. Um olhar alegre e sensível disposto a ler além do óbvio, mas discreto o suficiente para silenciar e deixar no ar apenas o tom de confidência tácita que te fazia sentir mais leve.
Era convicto no espiritismo, e sempre o achei com atmosfera professoral. Costumava alisar minha cabeça e dizer: D. Tânia, D. Tânia... e eu concluia que pensava "eu sei", como se intuisse a sintaxe da frase e a semântica de minhas sinapses.
Foi uma cerimônia linda e nela meu tio querido me ensinou sua derradeira lição. Não preciso dizer o que foi que aprendi. Seguindo o jeito de meu padrinho, vou silenciar a mim como se me confidenciasse.
Digo apenas que tocava violino, meu instrumento preferido, e soube disso minutos antes de ver seu corpo sumir sob a terra...
Do exercício de fixação do que tomei nota em meu coração, revelo apenas que vou em sua casa visitar minha tia, que não se lembra de mais ninguém e não sofre. Vou ver também sua filha e também o que dele não soube ao tempo da reciprocidade.
"Carinhoso" era sua música preferida e minha tia, agora viúva e sem memória, tocava piano... Tratam-se, para mim, de informações pueris e singelas, entretanto, nunca as soube no período em que poderia contribuir com um verso ou um acorde, ainda que em lá menor (ou em escala de "sol-riso").
(...)
No caminho da Cidade Verde busco usufruir aquilo que os dias de burocracia privaram de mim! Disse que não diria, mas confessarei a minha lição...Eis:
Obrigada, meu tio amado: vou visitar os recônditos amores de meu coração...