terça-feira, 8 de setembro de 2009

Não é perfeição, não é "tirânia" como alguém muito criativo construiu, ou até é, sabe? Para quem só pega no tranco com chicotes, tirania é a linguagem por excelência.
Penso tratar-se de senso de responsabilidade. Vimos onde eles moram, vimos o quanto andam, vimos o quanto é difícil para cada um deles, vimos e não vimos. Calamos, faltamos, negamos, desprezamos e gritamos...
Sou diferente porque não erro? Eu?
Não...apenas tenho a consciência a doer, exijo a obrigação e o que é necessário que seja feito a tod@s incluindo a mim. Se o preço disso for o silêncio, for rejeição ou raiva... aceito. Prefiro isso a coleguismos frívolos e passageiros que não edificam o caráter.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A vida pode ser bela?


Posso achar a vida bonita, isso é assustador!
Cadê a nostalgia nesse olhar de mel? Terríveis olhos depertos para o trágico da vida...
Por que tenho os olhos úmidos ao olhar o céu? Não é tristeza isso?
Sinto-me bem, sinto-me tão linda ao amar o que é perfeito, sinto-me tão pura frente à matéria bruta de que é feita a vida... caminho para o que está em meu olhar, me aglutino e me torno um espetáculo de amor à vida... me uno a ela como em um ósculo insano e intenso...
Tudo tem o nexo do Caeiro: "pensar é estar doente dos olhos". Calo a histeria do Campos "multipliquei-me para sentir tudo" e faço sexo indiferentemente com Soares. "de dia sou nulo, de noite sou eu".. no máximo, tomo vinho com Ricardo Reis "sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo"
Excitada, em êxtase, tateio zonas erógenas de minha alma com a ponta dos dedos de minha mão esquerda e sinto ouriçar os pêlos e arrepiar a nuca de minha desrazão...
É belo o que sinto, obriga-me a fechar os olhos e sorrir demorada e morosamente... são orgasmos frente a uma realidade inebriante...
Confusa, me vejo, medíocre, interrogrando a lua...Lua, você que é tão aclamada pelos pobres poetas em letargia... você: eterno clichê dos pobres pedintes apaixonados, me dá a tua quimera mais íntima, ela transcende a tua beleza. Não há desejo que não seja mais belo que o desejante...
Eu amo cada arrepio que essa brisa de vida me provoca.. Eu deliro com cada ventania que essa vida me apresenta ao desalinhar os cachos de meu cabelo...somos eu e a vida...
Não sei, não sei se soa venTANIA ou BRISAnti..."ven nti "a ti o que preferir...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Densidade de um lugar...

-O cobrador levou um tiro! - ouvi e fiquei com um sentimento desses que a gente precisa por um rótulo e não acha.
Vi as cenas passando: ambulância, motos da polícia, policiais revistando passageiros em outros ônibus, engarrafamento e um carro de som dizendo: barbaridade...um pai de família, mas pessoal do ônibus, comprem aí o meu cd, é R$ 1,0...
Pensei: isso é uma crônica, mas uma crônica mesmo, dessas que a gente sabe que se baseia em algo do cotidiano, mas custa a acreditar, dessas que a gente diz leigamente que é literatura, que é ficção. Meu Deus ( eu disse DEUS!!!!), o que é ficção nesse mundo? Quem inventou esse conceito não via a humanidade sucumbir?...
Mais uma vez, para variar, eu quis chorar. Eu poderia estar naquele ônibus! Se tivesse saído um pouco mais cedo do campus...se não tivesse abraçado Marcos demoradamente, se não tivesse desabafado com Ricardo, se não tivesse caminhando lentamente olhando para o céu e pensando que queria algo novo...eu poderia estar naquele ônibus.
Quarta passada: eu poderia estar na kombi que foi assaltada se tivesse saído um pouco mais tarde de casa, se tivesse me olhado mais uma vez no espelho, se tivesse me demorado mais em um abraço com Pablo, se tivesse esquecido algo - como é de costume.
A professora Cássia não teve essa sorte e chegou na escola em pânico, para encurtar a tragédia: desmaiou e foi levada para casa.
Há duas semanas: meu celular foi roubado na escola.
Quinta retrasada: assisti, com meus alunos, um documentário sobre homem que matou 14 pessoas em um lugar por onde passo todos os dias, uma região de SGA, local onde leciono e onde os alunos moram.
Passo pelo Rio Potengi, peço a ele uma resposta, uma coisa bonita, rápido, uma coisa bonita, urgente, urgente...não quero pensar em quem amo porque tenho medo, muito medo. Não quero eles misturados àquilo, não! Não quero eles ali...preciso de uma estrela, de águas, de flores, uma canção...
Luzes... de carros, de ambulâncias, de prédios distantes...o rio dorme. Achei uma canção na minha mente, uma canção que nunca havia sentido. Diz: "...Eu pensei que quando eu morrer vou acordar para o tempo e para o tempo parar",
Enfim, ainda no ônibus, penso, penso, penso no meu entorno; tiro fotos da janela, locus onde costumo sonhar...; desço; olho para o terreno ao lado e lembro da garotinha cortada ali; olho para a frente vejo um homem falando para o outro sobre o assassinato de um homem, vejo as "kombis" que, antes inocentes, hoje me dão calafrios...
Entro no carro de Francisco, professor que me dá carona às vezes. Ele pergunta logo: o que você tem? Quis dizer que tinha um bolo na garganta, retalhos de paisagens, de vidas, de sonhos, de pessoas...mas respondi: - não estou muito bem, sinto que o que há no meu redor é denso e corro ou freio - mesmo sem saber - para que isso não venha a me atingir.
Explico, ele fica meio espantado. Trabalho, volto para casa e concluo que ...

... preciso de um abraço essa noite, quero me sentir acolhida e distante de todos os estilhaços de poesia que se perdem nesse rugir insano do que me cerca...Cada vez mais quero poesia ( no sentido mais letárgico que alguém ousou concebê-la, no sentido menos clichê, no sentido mais humano, no sentido de um amor transbordante e infante pelo mundo...)

domingo, 7 de junho de 2009

Para Ricardo Yama rsrsrsrs


'Não se pode ter nervos... Sofrer por causa da solidão também é uma objeção - eu sempre sofri tão-só por causa da 'multidão'... Em um tempo absurdamente remoto eu tinha apenas sete anos de idade, eu já sabia que uma palavra humana jamais seria capaz de me alcançar: e será que alguém me viu consternado algum dia por causa disso?..."


Ecce homo - F. Nietzsche

Aforismos para Cynthia


Ela costumava ler historinhas para a gente em cada aula...
Todos os alunos passaram a levar historinhas e ler também...
Eu ficava sempre na minha...
No último dia levei uma canção que eu fiz...
Queria dar algo de mim...
Ela levou um sonho de ponte iluminada...
Nós aprendemos a cuidar dos meninos com mais amor...
Sábado ela voltou e disse: não sinta medo...
Eu a abracei e disse: obrigada...
Parecem aforismos parcos...
mas é só saudade de uma moça especial

sábado, 6 de junho de 2009

sinapsedor - antiespasmódico


-Moço, por favor, você vende um remédio para controlar os pensamentos? - disse uma hipocondríaca de 62 anos.
-Infelizmente, não, senhora.
-E o que eu faço para evitar coisas que confundem e que desestruturam verdades que antes eram tão caras a mim? Como não me sentir ridícula com alguns pensamentos tão adolescentes?Qual é o nome disso? O que é certo ou errado? Faz parar, moço... dói...Não tem cura, moço? Como faço para dormir sem pensar em capítulos que preciso escrever para uma instituição se os capítulos de minha vida gotejam fantasias?
-... não sei o que dizer, senhora.
-Oh não, vc não sabe o que dizer provavelmente porque não sabe o que pensar ou porque pensa muitas coisas ou então não quer dizer nada, ou então não há palavra no seu mundo para dizer o mundo das suas coisas, vc não gosta do que pensa, vc se identifica como sendo quem pensa sobre o pensamento, vc tem um bocado de gente na sua cabeça e essas pessoas discutem sem que haja entendimento, vc chora sem motivo e ri no desespero, vc não sabe se é humano porque pensa ou se pensar tira a humanidade, vc também sofre disso!!!Vc é neraustênico para as coisas da alma, vc sofre quando vê gente sem pão de poesia e sem poesia no pão, vc quer militar mas não melhora nem a si próprio, vc naum tem parâmetros para se melhorar pq não sabe o que é o melhor, vc se acha perdidoVocê sofre da doença do emaranhado, de apostasia crônica, do niilismo metalinguístico, do inominável, né?
-Não sei... acho que sim, mas...como assim?Apostasia do...?
-Tá vendo, tá vendo...vc tem isso.
O vendedor se calou, ficou ainda mais confuso e foi à farmácia ao lado. A senhora ficou curada: descobriu a cura na alteridade e alterou suas formas de pensamento.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Padrinho

-Eu quero ir.
Tratava-se de um enterro, o de meu padrinho e tio. Não sabia o que estava sentindo quando da notícia, apenas queria significar.
Queria abraçar minha prima, olhar para o rosto de meu tio, buscar uma resposta da vida, rever o túmulo do meu pai, encarar e realidade menos lapidada da humanidade.
Não quis me aproximar, não peguei nenhuma flor do caixão, como costumo fazer. Achei que fosse ficar sóbria, mas apertou algo bem no peito e doeu por sobre a cabeça. Quando dei por mim prendia o choro e minutos depois já estava atônita e inerte com olhos "postos- vagos" para os carinhos de minha prima ao seu pai.
Havia duas foto dele, um chapéu que gostava, muitas flores e um moço no violão. As coisas se passavam em rituais católicos que me incomodavam, pois não conseguia discernir o que sentia e isso sempre me perturbou. Sentia raiva de mim por achar os rituais estranhos, sentia tristeza por sentir que estava longe da rota, sentia medo de ser a incrédula de que falava o padre. A incrédula que não conseguia acreditar em nada pela vastidão de possibilidades de crença.
A crença da não-crença se fez doutrina e resignação.
Lembrei do semblante de meu tio. Era doce. Um olhar alegre e sensível disposto a ler além do óbvio, mas discreto o suficiente para silenciar e deixar no ar apenas o tom de confidência tácita que te fazia sentir mais leve.
Era convicto no espiritismo, e sempre o achei com atmosfera professoral. Costumava alisar minha cabeça e dizer: D. Tânia, D. Tânia... e eu concluia que pensava "eu sei", como se intuisse a sintaxe da frase e a semântica de minhas sinapses.
Foi uma cerimônia linda e nela meu tio querido me ensinou sua derradeira lição. Não preciso dizer o que foi que aprendi. Seguindo o jeito de meu padrinho, vou silenciar a mim como se me confidenciasse.
Digo apenas que tocava violino, meu instrumento preferido, e soube disso minutos antes de ver seu corpo sumir sob a terra...
Do exercício de fixação do que tomei nota em meu coração, revelo apenas que vou em sua casa visitar minha tia, que não se lembra de mais ninguém e não sofre. Vou ver também sua filha e também o que dele não soube ao tempo da reciprocidade.
"Carinhoso" era sua música preferida e minha tia, agora viúva e sem memória, tocava piano... Tratam-se, para mim, de informações pueris e singelas, entretanto, nunca as soube no período em que poderia contribuir com um verso ou um acorde, ainda que em lá menor (ou em escala de "sol-riso").
(...)
No caminho da Cidade Verde busco usufruir aquilo que os dias de burocracia privaram de mim! Disse que não diria, mas confessarei a minha lição...Eis:
Obrigada, meu tio amado: vou visitar os recônditos amores de meu coração...