segunda-feira, 15 de junho de 2009

Densidade de um lugar...

-O cobrador levou um tiro! - ouvi e fiquei com um sentimento desses que a gente precisa por um rótulo e não acha.
Vi as cenas passando: ambulância, motos da polícia, policiais revistando passageiros em outros ônibus, engarrafamento e um carro de som dizendo: barbaridade...um pai de família, mas pessoal do ônibus, comprem aí o meu cd, é R$ 1,0...
Pensei: isso é uma crônica, mas uma crônica mesmo, dessas que a gente sabe que se baseia em algo do cotidiano, mas custa a acreditar, dessas que a gente diz leigamente que é literatura, que é ficção. Meu Deus ( eu disse DEUS!!!!), o que é ficção nesse mundo? Quem inventou esse conceito não via a humanidade sucumbir?...
Mais uma vez, para variar, eu quis chorar. Eu poderia estar naquele ônibus! Se tivesse saído um pouco mais cedo do campus...se não tivesse abraçado Marcos demoradamente, se não tivesse desabafado com Ricardo, se não tivesse caminhando lentamente olhando para o céu e pensando que queria algo novo...eu poderia estar naquele ônibus.
Quarta passada: eu poderia estar na kombi que foi assaltada se tivesse saído um pouco mais tarde de casa, se tivesse me olhado mais uma vez no espelho, se tivesse me demorado mais em um abraço com Pablo, se tivesse esquecido algo - como é de costume.
A professora Cássia não teve essa sorte e chegou na escola em pânico, para encurtar a tragédia: desmaiou e foi levada para casa.
Há duas semanas: meu celular foi roubado na escola.
Quinta retrasada: assisti, com meus alunos, um documentário sobre homem que matou 14 pessoas em um lugar por onde passo todos os dias, uma região de SGA, local onde leciono e onde os alunos moram.
Passo pelo Rio Potengi, peço a ele uma resposta, uma coisa bonita, rápido, uma coisa bonita, urgente, urgente...não quero pensar em quem amo porque tenho medo, muito medo. Não quero eles misturados àquilo, não! Não quero eles ali...preciso de uma estrela, de águas, de flores, uma canção...
Luzes... de carros, de ambulâncias, de prédios distantes...o rio dorme. Achei uma canção na minha mente, uma canção que nunca havia sentido. Diz: "...Eu pensei que quando eu morrer vou acordar para o tempo e para o tempo parar",
Enfim, ainda no ônibus, penso, penso, penso no meu entorno; tiro fotos da janela, locus onde costumo sonhar...; desço; olho para o terreno ao lado e lembro da garotinha cortada ali; olho para a frente vejo um homem falando para o outro sobre o assassinato de um homem, vejo as "kombis" que, antes inocentes, hoje me dão calafrios...
Entro no carro de Francisco, professor que me dá carona às vezes. Ele pergunta logo: o que você tem? Quis dizer que tinha um bolo na garganta, retalhos de paisagens, de vidas, de sonhos, de pessoas...mas respondi: - não estou muito bem, sinto que o que há no meu redor é denso e corro ou freio - mesmo sem saber - para que isso não venha a me atingir.
Explico, ele fica meio espantado. Trabalho, volto para casa e concluo que ...

... preciso de um abraço essa noite, quero me sentir acolhida e distante de todos os estilhaços de poesia que se perdem nesse rugir insano do que me cerca...Cada vez mais quero poesia ( no sentido mais letárgico que alguém ousou concebê-la, no sentido menos clichê, no sentido mais humano, no sentido de um amor transbordante e infante pelo mundo...)

2 comentários:

  1. Compreendo perfeitamente Tânia, a sua angústia de relatar o que acontece ao seu redor,

    Será que e só você que tem a sensibilidade de enxergar?

    Aonde vamos parar?

    Olhos vendados nada aconteceu, tudo vai ser resolvido!

    Temos sede de justiça, mais que justiça?

    Vivemos no mundo de desamor...

    A entidade família se acabou...

    Aonde vamos parar?

    Quando é que as pessoas vão conseguir enxergar? E tentar mudar!

    Anninha Nunes

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  2. Lá fora ouço os sons do horror, do desamor...


    Deus maestre em nós lindas canções e
    que o concerto do amor faça-se sempre!

    nos tornemos musicas...

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